segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

domingo, 22 de outubro de 2017

QUEM DECIDE EM CASA? TV NOVA!

TV NOVA!!!



Arthur, 9 anos, e Paulo, 6 anos, estavam muito ansiosos pela chegada da nova TV. Eram 16 horas quando a loja entregou. Agora eles não se continham de agitação, esperando pela chegada do pai, pois mamãe declarou que “só em sua presença” a novidade seria aberta.

Naquele dia papai chegou tarde, extenuado, mas como adiar mais um dia a espera dos filhos?

Abriram a caixa, instalaram a TV, plugaram… e como fazer funcionar? Como usar os comandos do controle? Aquela hora do noite, com o dia carregado nas costas, as letrinhas minúsculas do manual em inglês ou espanhol, parecia um desafio impossível. Eis que Arthur sugeriu: “Deixa que eu consigo!!!”

O pai disse que não, melhor ele mesmo tentar. Podemos deixar para amanhã, sugeriu depois de um tempo cansado da sopa de letrinhas que via no manual. “Olha, pai, é só sintonizar aqui.”- tentou Arthur.

Opa! Conectou-se um menu. O pai, já mais flexível, entregou o controle na mão dos garotos, enquanto prosseguia a leitura das instruções.

Arthur e Paulo disputavam o controle, começaram a brigar. A mãe interveio, sugerindo que Arthur deixasse o menor olhar um pouquinho.
“Mas ele mal sabe ler”, retrucou Arthur. “Não vai conseguir”.
Neste meio tempo, Paulo já estava dentro do modo TV e escolhendo seus desenhos para assistir.

Neste novo universo digital, muitas vezes são os filhos que detêm o saber e a habilidade, fazendo com que os pais se sintam fora “do comando”.
Muito provavelmente vocês pais leitores lembram-se de seus pais serem as grandes fontes de transmissão de saber. Mas, com certeza, já se viram na estranha situação de dependerem dos filhos tanto para decifrar, como para escolher por vocês o modelo do celular ou som e TV que vão adquirir. São eles também que, com facilidade, conseguem informações e roteiros para os programas em família. Isto os coloca em uma posição de privilegio e inverte a ordem das gerações – os filhos passam a ser os instrutores dos pais.
É claro que nós pais ficamos orgulhosos com a inteligência e “esperteza” dos filhos, afinal são melhores que a gente!!! Com rapidez decifram o que para a outra geração era desafiador e enigmático.

Esta inversão que parece banal e corriqueira nos nossos tempos pode comportar uma mensagem um tanto complicada – são eles quem sabem! E como saber, muitas vezes significa poder… serão eles que podem! Eles decidem!

Sim! Nós criamos os filhos para o mundo e superar os pais, em geral, é esperado, mas na idade adulta. O controle digital desta geração, os leva a crer em uma autonomia que pouca maturidade têm para exercê-la. Acham que podem, agora, tudo sozinhos sem a tutela de pais e professores. Muitos dos conflitos e desafios vistos nas escolas e nas famílias parecem se pautar neste tipo de vivência.

Como sair desta? Afinal é verdade que no quesito digital eles realmente levam a supremacia.
Então Pais! Vamos pensar em que outros aspectos estaríamos agindo da mesma forma? Em quais situações nós poderíamos estar abrindo mão desnecessariamente de ser o tutor do filho? Devemos ter cuidado para não acreditarmos que o fato dos nossos filhos terem esta habilidade que a nossa geração nem sequer sonhou.


QUEM DECIDE EM CASA?

Pizza de Domingo







Papai decidiu comprar um pizza para o jantar. Claro! Ele já saboreava sua tradicional e adorada calabresa… faz tempo que não comia uma, pensou… Mamãe logo concordou! Aposto que já pensava na sua de abobrinha… eis que André, 4 anos, declarou: “quero pissa de queso”. Pais se entreolharam um pouco desolados:

“Bom, pedimos 1/2 de abobrinha e 1/2 mozzarella para André. Na próxima eu escolho a nossa metade, tá bom querida?”, papai vem a conciliar.
Mamãe remenda: “E a Joana?”, filha de 2 anos do casal.
“Para ela, mozzarella está bom”, papai afirma resoluto.
“Será?” Mamãe duvida.

Como você, leitor, acha que deve acabar esta história?
O que faria no lugar destes pais?

Hoje, cada vez mais, vemos os filhos serem aqueles que decidem tudo em casa. Parece que nós, pais, deixamos de dizer o que pode ou não pode, de resolver como será uma mera pizza de domingo.

A família que, tradicionalmente, deveria ser a transmissora da cultura, portanto balizadora das normas de conduta, ultimamente, vem deixando de exercer estas funções. E a educação dos nossos pequenos, cada vez mais vem sendo delegada a cuidadores profissionais ou a instituições de educação, uma vez que os pais necessitam se afastar para trabalhar por longos períodos, restando-lhes pouco tempo para se dedicarem ao convívio com os filhos.

Quando presentes, os pais não têm vontade de dar limites ou ocupar o espaço de educadores, pois sentem-se culpados devido ao seu longo período de ausência, querendo compensar os filhos como sendo muito prazeroso os poucos momentos que podem desfrutar juntos.

Infelizmente a ideia de uma boa convivência é associada a momentos sem regras ou limites. Um momento legal seria aquele em que pode tudo! Que se pode desfrutar de tudo! As crianças vêm sendo ensinadas por nós que tudo podem, e nós adultos lhes devemos um mundo de alegrias e prazeres.

Isto acontece pelo fato dos pais temerem ser considerados pelos filhos como “pais ruins” quando além da ausência, têm que impor regras e limites. Mas não esqueçam que serão justamente estas regras e limites que farão com que os filhos cresçam seguros, não vivendo qualquer frustração como uma catástrofe irreversível.

As regras e os limites, quando bem administrados, não gerarão crianças mimadas e birrentas, revindicando que o mundo gire só em torna delas. É claro que um choro sempre tem um valor de comunicação e também não pode ser só compreendido como resultado de um mal comportamento ou birra, mas não podemos perder de vista que limites e novos desafios são importantes para a conquista da autonomia e maturidade da criança. Desta forma, quando crescerem vão poder agir como adultos. Devemos nos perguntar, seriamente se não estamos transmitindo um ideal de mundo em que tudo e todos lhes devem muita alegria e satisfações, tudo é de seu direito, todos devem lhe servir.

Portanto, pais, não deixem de dar estes contornos tão necessários para o desenvolvimento dos seus filhos. Diversão e brincadeira são muito importantes! Mas não é só isto! Ser pai e mãe é dar contorno e valores que só são transmitidos através de atitudes coerentes e consistentes. Dar rotina, regras e limites é nossa função!


quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

" O SILÊNCIO QUE FALA"

         O filme "Silencio que fala", dirigido por Miriam Chnaiderman, dá voz aos pais de pessoas que foram diagnosticadas com autismo. São relatos de tocantes experiências sobre pessoas que se beneficiaram do trabalho psicanalítico, colhidos em várias cidades e instituições do Brasil pelo Movimento Psicanálise, Autismo e Saúde Pública (MPASP).





segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

POR QUE ATENDER PAIS E CRIANÇAS?

     





“Paulo e Vera procuram auxílio para seu filho André, hoje com 4 anos, que vem apresentando comportamento de isolamento na escola. Não quer conversar com eles sobre o que está acontecendo. Prefere brincar sozinho, solicitando pouco os adultos. Requer atenção apenas quando quer alguma coisa. Vera relata que se sente isolada. Esta sensação lhe remete à sua infância, quando seu pai retornava muito alterado para casa e agredia sua mãe e irmã mais velha. Ela mergulha nesta lembrança de ambivalência: ficou de fora da cena agressiva, mas, por outro lado, isto lhe salvou. O isolamento do filho parece cutucar esta lembrança.”



O relato acima, embora fictício, ilustra o cotidiano do acolhimento clínico que se realiza no atendimento de crianças. Acolher e receber as tramas dramáticas de uma família é o nosso ofício. Sabemos como as tragédias familiares têm o dom de se emaranhar com a história subjetiva de cada um de nós. Com a família de André, o mesmo processo acontece.
Poder falar de como um evento trágico incide no drama pessoal de cada um dos envolvidos está longe de colocar ambos como causa e consequência. Mas vemos que, em muitos casos, ao realizar este trabalho de circulação dos eventos da história familiar, as condições e relações entre os membros desta família melhoram, isto é válido também para as crianças.
É da maior importância ter claro que fatos da história não são suficientes, principalmente nos casos de maior gravidade, para afirmar a causa de uma sintomatologia na infância. Mas não devemos esquecer que somos seres históricos e estamos acostumados a pensar nesta perspectiva. Somos a única espécie que tem noção do tempo, a qual cada pessoa se comporta de forma única e é capaz de construir uma trama psíquica sobre suas vivências.
Esta construção não deve ser entendida como causa de uma doença.   Ela se inscreve nas nossas vivências, principalmente diante do sofrimento. Mas não necessariamente explica a causa de uma doença. São realidades distintas. Estamos diante de uma pluralidade de fatores aonde a reconstrução de um fato difere muito da reconstituição dos fatos. Incorrer na confusão entre a possibilidade de reconstrução simbólica de uma vivência e a restituição do factual tem suas implicações éticas.
Quando vê o isolamento de seu filho André, Vera é invadida por lembranças. Ao se trabalhar tais lembranças ela terá novos recursos para lidar com André sem se paralisar diante dos sentimentos de solidão e isolamento que sua lembrança evoca. O movimento interno de Vera pode abrir novas possibilidades para André, inclusive para que este possa realizar o seu trabalho analítico. Vejam, não estamos falando de causa de uma doença e sim do movimento plástico das tramas psíquicas.
Quando uma família nos solicita ajuda, está em dificuldades e seus membros sentem-se sozinhos. Sabemos da dor dos pais quando nos procuram e da dificuldade de enfrentarem estas dores sozinhos.
Nós, analistas, também somos afetados pelos dramas dos quais cuidamos, mas compartilhar ou demonstrar tais sentimentos podem mais atrapalhar do que ajudar as crianças e famílias em uma análise. Tais sentimentos costumam ser uma ótima bússola para ajudar no tratamento, dão notícias sobre as vivências das famílias.  Mas isto não quer dizer que entendemos ser possível achar um culpado ou uma causa única para o que está acontecendo com a criança e a família.

Toda esta discussão, da maior importância, vem sendo nosso foco, tanto nos acolhimentos institucionais como nos consultórios.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Como deve ser o trabalho de profissionais da saúde na primeira infância?

Entrevista concedida à TV UNESP

A psicanalista Mira Wajntal destaca o papel de intervenção para diagnosticar patologias


http://www.tv.unesp.br/3953




Os profissionais de saúde têm um papel fundamental ao compreender a relação entre pais e filhos a fim de diagnosticar indicadores que podem mostrar patologias graves. A psicanalista Mira Wajntal detalha o trabalho de formação no Instituto Sedes Sapientiae e da prefeitura de São Paulo nos hospitais de infância.

Mira detalha ainda que faltam políticas públicas para valorizar as crianças com problemas psíquicos.



domingo, 26 de outubro de 2014

DE ONDE NASCE O BULLYING?*






Se pensarmos bem sobre a vivência de ser intimidado (bullying), quer a tenhamos sofrido ou a assistido de perto, veremos que há sempre um conteúdo de vingança na intimidação. Curiosamente, a intimidação é praticada, justamente, pelas pessoas que se sentem ameaçadas ou privadas de algum bem de usufruto que um colega possui ou que ele crê que possui. Estes bens podem ser tanto materiais, como uma posição de prestígio, ou de ser amado.
O desejo de igualdade e justiça acaba por esconder seu verdadeiro objetivo que é fazer com que o outro, o rival, sinta-se exatamente como nós, sem nada.
Hoje em dia, o mundo moderno valoriza não o que se é, mas o que se tem. Acredita-se que o ter é igual a poder usufruir da vida.

Aquele que exerce a intimidação em geral é uma pessoa que teme muito perder. Isto pode ocorrer porque esta pessoa já teve vivências dramáticas, vivências de privação, ter sido vítima de bullying, ou pela resolução que deu a seu conflito invejoso[1].  O Intimidador é aquele que por temer em demasiado perder, e sabe disto, se vale de uma tentativa de liderança, atacando um colega semelhante, pessoa que tem uma fragilidade que ele identifica como igual à sua, garantindo a sua liderança e, portanto, sua imunidade ao ataque - ataca para se assegurar que não será atacado. Embora negue, o agressor está fortemente identificado com sua vítima.

Vemos que há um grande correlato entre pessoas que dizem ter sofrido uma intimidação e as que exercem uma intimidação. Ou seja, o pensamento do tipo: “já que fizeram comigo, faço por vingança” parece estar em uma parcela significativa dos casos.
Isto também nos lembra dos jogos infantis, nos quais veremos que a criança repete justamente o que há de mais desagradável para si. Esta curiosa repetição é a forma de dominar suas vivências desagradáveis. Domínio este que lhe dá prazer.

Por fim, situação que muito instiga pais e educadores é o fato das vítimas não pedirem socorro. Isto parece acontecer, em parte, pelos mesmos mecanismos. Por se ver identificado com o intimidador, que usufrui do prestígio de líder, a vítima teme perder seu lugar junto ao líder e a ele se submete. Mas, creio que na primeira oportunidade de exercer esta atividade - de intimidar - ele irá fazer, por vingança, mesmo que em outro colega ou ambiente.

Está aí uma boa chave para a discussão do tema, tanto entre pais e educadores, como em um grupo em que este processo esteja ocorrendo.





*Baseado nos comentários realizados na banca de TCA de Bruna Carvalho Simões no Colégio Oswald de Andrade (2013).


[1] Leia mais sobre os sentimentos de inveja no texto publicado sobre o tema neste blog.

domingo, 1 de junho de 2014

SERÁ AUTISMO?

Hoje em dia, o autismo é considerada uma síndrome comportamental. Há uma vantagem nisto: tira-se o peso de se encontrar uma única causa para o autismo, abrindo um rico campo para pensá-lo como resultado da interação de múltiplas causas, quer sejam genéticas, biológicas, ambientais ou afetivas. Não devemos entender o autismo como relacionado apenas a um fator.
A desvantagem é que desde que ele passou a ser descrito desta forma, uma quantidade muito grande de crianças passaram a receber este diagnóstico, criando um espectro enorme de casos clínicos, muito diferentes, em um mesmo enquadramento.
A resposta de como perceber que uma pessoa é portadora de autismo também não é simples. Atualmente, tanto as pesquisas como as diversas terapias e modalidade de tratamento apontam para o fato de que quanto mais cedo se intervém, melhor o prognóstico e menos custoso será o tratamento. De qualquer forma, não se deve dar este diagnóstico antes dos 2 – 3 anos. Mas, nesta ocasião, já perdemos a oportunidade de agir, quando há maior neuroplasticidade, possibilitando que se faça uma intervenção antes que se instale definitivamente um processo mórbido. Então o mais interessante é que possamos saber detectar sinais de alerta de que um bebê não está bem. Realizar uma intervenção em tempo, antes que as estruturas do funcionamento mental se instaurem em definitivo.
 A dificuldade de tudo isto é não estabelecer uma linha direta do tipo há a presença de um sinal de alerta, logo o bebê é autista. Isto seria criminoso e iatrogênico, ou seja, um distúrbio provocado pelo tratamento.
Em pediatria todo sinal deve ser visto ao longo do desenvolvimento. Um diagnóstico em saúde mental na infância deveria obedecer a mesma regra.
Uma política de intervenção precoce não pretende fazer diagnóstico no primeiro ano de vida, mas detectar, a partir de sinais de riscos, possíveis problemas no desenvolvimento do bebê com a finalidade de intervir.
Desta forma, o que é um sinal que nos faz perceber o autismo será muito diferente para cada idade.
Para crianças maiores de 3 anos podemos observar os seguintes sinais (Kanner 1943):
·       Evitam tanto o contato físico como o contato pelo olhar;
·       Tratam as outras pessoas como se fossem objetos;
·       Apresentam fala repetitiva;
·       Têm reações de horror a qualquer perturbação do meio;
·        Apresentam sensibilidade e memória fenomenais para qualquer alteração de rotina, detalhes ou objetos;
·       Suas ações são repetitivas e monótonas;
·       Ficam por longos períodos balançando-se (balanceio corporal);

Particularmente, me interesso pelo reconhecimento precoce de que um bebê não está bem na relação com o outro. As pesquisas feitas a partir dos pressupostos da psicanálise, indicam como sinal comum a todas as crianças de risco de desenvolver autismo a ausência de um "interesse pelo interesse" de seu cuidador, em geral os pais.
Os bebês nascem com “a motive for the motive of the other”. Não é o caso  dos bebês que se tornam autistas. Se fizermos uma pesquisa retroativa sobre seus primeiros anos de vida - isto já foi feito em acervo de filmes caseiros de crianças que vieram a receber o diagnóstico de autismo - veremos que em nenhum momento ele toma as rédeas da situação, para se fazer ele mesmo objeto de brincadeiras com a mãe. Ou seja, quando uma mãe brinca com o bebê, ele não só se diverte, como consegue perceber o valor que ele tem para estes que dele cuidam. Quando um jogo de beijos ou cócegas, por exemplo, é interrompido, é esperado que a partir do oitavo/nono mês o bebê passe a fazer provocações para retomar a brincadeira que causava prazer, tanto para ele como para a mãe.
Os bebês de riscos são aqueles que:
·       Não fazem contato olho a olho (até os 2 meses);
·       Não fazem qualquer gesto imitativo quando um adulto interage com ele.
·       Não sorriem (3 meses);
·       Não dirigem o olhar quando falam com ela (3 meses);
·       Não demonstram qualquer atitude antecipatória em direção aos adultos que lhes despendem os cuidados, sendo de difícil ajuste à posição do corpo quando carregadas(4 -5 meses);
·       Não balbuciam (4 -5 meses);
·       São indiferentes à presença ou ausência do cuidador (4-5 meses);

·       Não apresentam interesse ou atitude de convocar o outro em uma brincadeira (a partir dos 7 meses).

segunda-feira, 10 de junho de 2013

UMA CLÍNICA PARA A CONSTRUÇÃO DO CORPO

Em muitas oportunidades recebi famílias que traziam crianças com patologias graves.
Em geral, estas crianças, muito precocemente, haviam apresentado atraso de uma ou mais funções do desenvolvimento afetivo, cognitivo, motor, da linguagem ou da socialização que, apesar da queixa da mãe, não foram reconhecidos como sintoma pelo pediatra.
Só vieram a receber um diagnóstico aproximadamente aos seis ou sete anos e, com muita sorte, conseguiram algum tipo de tratamento, após o diagnóstico.
Nesta ocasião, o olhar dos familiares, a esperança muda, desgastada, de quem já passou por muitas consultas e nem sabe bem formular o que está acontecendo. 
Nas primeira entrevistas, os familiares pronunciam poucas palavras, parecem enunciar que para compreender seu sofrimento basta apenas ver a criança da qual se queixam. Voltam-se para o analista com a expectativa de que ele saiba explicar o que está acontecendo. A queixa familiar parece ter silenciado e a manifestação comportamental destas crianças parece ser o único testemunho do sofrimento. 
Cultivar a fala, a reflexão e a biografia nestas famílias é quase um malabarismo. Exige do clínico transportar enigmas do indizível, pesares, angústias e, assim mesmo, encontrar caminhos criativos para que as mesmas venham ao mundo da associação de idéias, isto é, para que estas famílias tomem para si a tarefa de construírem os alicerces da narrativa de suas histórias.



In: Wajntal, M. – “Uma Clínica para a Construção do Corpo”, SP, Via Lettera, 2004.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

A CRIANÇA, SUA HISTÓRIA, OS PROFESSORES E A REPETIÇÃO


Nas salas de aulas, é frequente que professores e alunos encontrem crianças que pareçam ser impossíveis. Estes alunos acabam sendo marcados como difíceis. Muitas vezes, sua permanência na escola fica comprometida. Pais, crianças e professores saem "arrasados" desta experiência, prometendo nunca mais repetir o feito, mas todas as mudanças propostas não surtem efeito.
O que pode estar acontecendo?
É claro que o problema tem múltiplos fatores, mas há um aspecto que considero da maior importância, cuja explicitação resulta em eficácia, e pouco vem sendo abordado nas escolas, frente a este problema.
Trata-se do fato dos adultos que se ocupam da criança estarem induzidos a viver papéis dos quais jamais se imaginaram desempenhando. Isto é, realizam junto com a criança um tipo muito particular de rememoração, desempenhando e agindo de forma estranha para eles mesmos. Com freqüência, o educador terá a sensação de não se reconhecer ao tomar uma atitude, mas, inevitavelmente, diante desta criança, protagoniza este papel.
O que é isto?
Todos nós temos uma verdade que não é lembrada facilmente, trata-se de um esquecimento sobre um fato importante e determinante da história de cada um. Em geral, serão fatos desta natureza que rememoramos, não através de uma recordação, mas através de uma atuação, reproduzindo, sem nos darmos conta disto, temas que são motivo de conflito psíquico para nós.
O que se observa é que com esta criança considerada difícil, os profissionais acabam exercendo papéis que repetem cenas importantes da história desta criança que foram completamente esquecidas. Em geral, tais fatos da história dela estão de alguma forma relacionados com a sua dificuldade de integração. Isto pode acontecer sem que nenhum dos envolvidos possa se dar conta disto ou saiba explicitamente destes acontecimentos.
Uma vez que os profissionais caem nesta rede repetitiva da criança, ambos passam a viver fatos, entendidos como problemas pessoais, sem saber. Neste momento, a criança é deixada de escanteio e surgem vários conflitos entre os membros da equipe que trabalham com ela.
Quando é possível expressar estas vivências, nas reuniões de professores ou na supervisão institucional, veremos que independente da pessoa envolvida, o papel é desempenhado da mesma forma.
Por exemplo, João é uma criança inteligente e ativa, mas não consegue permanecer em nenhuma escola. Embora não tenha nenhuma dificuldade de aprendizagem, é muito agressivo e destrutivo com os colegas. Tem uma grande habilidade em desqualificar as outras crianças, principalmente, diante do olhar de uma autoridade, em geral a professora, deixando a outra criança muito constrangida, por vezes incapaz de prosseguir na sua produção.
Esta cena se repete quando a coordenação pedagógica da escola entra em sala com o objetivo de mediar o problema. João consegue realizar toda sorte de atitudes, colocando a professora em uma situação em que se sente muito desqualificada, portanto, constrangida diante de seus superiores. A professora chega a se questionar se é capaz de ser uma boa profissional.
Se buscarmos na história de vida de João, veremos que há alguma situação que aponta para esta vivência repetida por aqueles que lhe prestam atenção e cuidados. Situações como o fato da avó paterna nunca ter autorizado a mãe de João a ser integrante da família; ou a mãe, por ocupar uma posição de grande prestígio social, desqualifica o marido por não ser tão bem sucedido como ela -  uma insistência repetitiva na qual todos acabam se envolvendo como protagonistas.
No momento em que estas vivências são explicitadas e reconhecidas como determinantes nestes mecanismos repetitivos que impedem a inclusão da criança na escola, o peso e mal estar da equipe que se vê capturada por estes mecanismos são aliviados, produzindo uma mudança no cenário de trabalho. Todos podem reconhecer o que está ocorrendo, integrando e elaborando as vivências, o que certamente produzirá grande diferença para a criança.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

PAIS CANGURU

É possível confeccionar o seu







Há alguns anos morriam quase todos os prematuros numa cidade da Colômbia que não tinha incubadoras equipadas. Aí, o diretor do hospital teve uma ideia genial - criar uma incubadora prática, eficaz e gratuita: o próprio corpo da mãe, permitindo o contato pele a pele entre a mãe e o recém-nascido.
Assim, o bebê mantém sua temperatura (não perde calor) e fica perto de sua fonte de alimentação - a mama materna. Esse método lembra o que garante a vida do filhote do canguru que logo ao nascer sobe pelo corpo da mãe e entra dentro de uma bolsa que o aquece e contém as mamas.
O resultado foi uma surpresa maravilhosa e, por isso, foi adotado em muitos países. Nos lugares pobres, o método é usado “em vez de” a tecnologia e nos países desenvolvidos é utilizado “além de” a tecnologia para humanizar o atendimento do prematuro e permitir o estabelecimento do vínculo afetivo entre mãe e o recém nascido, além de apressar a alta hospitalar.
Como é: o prematuro fica pelado só com fraldas (se necessário, de touca na cabeça e um cobertor nas costas) e é mantido de pé, debaixo da blusa da mãe, contato pele a pele, entre as mamas (sem sutiã). Curiosamente, outros familiares e o próprio pai podem servir temporariamente de “mãe canguru”.
No Brasil, o pioneiro foi o Hospital Guilherme Álvaro,da Faculdade de Medicina de Santos.



Texto elaborado pelo Prof. Dr. Jayme Murahovschi, em um projeto que desenvolemos conjuntamente (1999 - 2001)

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

FELIZES PARA SEMPRE


No mundo dos contos de fadas, nas estórias destinadas à infância, observamos que temas relacionados tanto à violência como ao erotismo são frequêntes, porém atenuados, suavizados e, por fim, compensados com um final feliz. Pode-se dizer que esta preferência pelas versões modificadas contendo estas características é o que prevalece hoje em dia como oferta literária e de entretenimento para nossos pequenos.
Isto pode ser analisado tanto pela ótica dos pais, da criança como da sociedade.
As mudanças no conteúdo das estórias infantis em certa medida respondem a questões narcisistas parentais, pois os pais querem não só sinalizar, como tentam garantir os votos de um bom futuro para os filhos. Estes votos são legítimos e genuínos, possivelmente o melhor que lhes reservou a realidade.
Devemos, apenas, ter cuidado para não sermos ingênuos em dois aspectos: ao tentar mostrar um lado ideal, onde qualquer conflito termine bem, que destino uma criança pode dar ao que realmente não vai bem. Como ela se sente sabendo que sua sorte não foi exatamente a prometida? Será que nos excessivos votos de um final feliz, também contém fantasias e temores “nada felizes” das vivências, dos fracassos e frustrações da realidade?
Neste sentido, o final feliz pode trazer embutido a negação que não podemos negligenciar: nem sempre a criança vive um mundo de sucessos e isto pode ser um motivo de grande angústia quando comparado às fabulas de finais felizes. Os pais e educadores devem ficar atentos a este aspecto para poder falar abertamente do conflito produzido.

Na medida em que a sociedade confere à criança um lugar próprio, é possível também conhecer suas especificidades e saber que seus recursos de elaboração são distintos dos adultos. Uma boa parte da  modificação dos tradicionais contos infantis se deve a isto.
Devemos nos perguntar, então, o que uma criança compreende do que lhe é falado, pois expor demais a mesma a conteúdos que ela não pode suportar pode ser traumático. Com frequência, a criança pega uma "carona" nas histórias contadas para elaborar as próprias questões, o que está difícil de compreender ou "digerir".
Saber dosar informações pode ser uma medida de proteção, pois muitas vezes uma criança pode viver uma informação como excessiva, negativa e pesada ou terrífica. Mas isto também não significa deixá-la em uma redoma sem expô-la a nada. Isto também seria uma falsa ideia do que é bom para a infância.
Se observarmos a brincadeira infantil veremos que ela repete justamente o que há de mais desagradável para si. Esta curiosa repetição é a forma que a criança tem de dominar suas vivências desagradáveis, quando este domínio é bem sucedido gera prazer. Por isto, os nossos pequenos gostam tanto de repetir brincadeiras e histórias.



Texto desenvolvido a partir do Trabalho de Aproveitamento de Curso, realizado por Marina Giovedi Arnoldi "Por que eles foram felizes para sempre?", Colegio Oswald de Andrade, São Paulo, 2011 do qual participei da banca examinadora.

sábado, 15 de dezembro de 2012

O SUJEITO NÃO É SEU DIAGNÓSTICO.


Vamos refletir sobre isto?

Com uma espectro cada vez mais sofisticado e segmentado de diagnósticos, crianças passam a ser vistas apenas como um rótulo, sem história ou subjetividade. Isto também gera a falsa ideia de que a solução para o rotulo é única. Ou seja, um único tratamento, só com um tipo eficaz de intervenção.


domingo, 2 de dezembro de 2012

CLÍNICA COM CRIANÇAS: ENLACES E DESENLACES








Reinventar a psicanálise diante de cada caso é uma prática constante da clínica com crianças. Estamos diante de um campo cuja diversidade de realidades e envolvimento com família, escola e instituições requer uso flexível e criativo dos dispositivos clínicos.


Reunimos aqui diversas experiências que discutem a clínica da primeira infância, sua peculiar dinâmica institucional, atendimento multiprofissional na intervenção precoce, inclusão em creche, início do tratamento e a especificidade da escuta da família no atendimento infantil

Apresentamos também textos sobre o final do tratamento, transtornos psicóticos, transtornos globais do desenvolvimento e o acompanhamento terapêutico com crianças para ilustrar as vicissitudes desta clínica.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

O LUGAR DO ACASO EM NOSSAS VIDAS



Estamos habituados a pensar que tudo em nossas vidas tem uma causa, um motivo. Pouco damos espaço para pensar que coisas também são frutos do acaso.
Para complicar um pouco, temos hoje em dia, uma ideia bastante difundida, e também correta sobre tudo ter um motivo inconsciente.
 Sim, é verdade! Há sempre uma motivação inconsciente em nossos atos! Então como conciliar o acaso e a causa das coisas?
Proponho uma reflexão da maneira que encaramos ambas. Motivação inconsciente não deve ser compreendida como uma simples relação causa-efeito? A crença na relação de causa linear,  creio, é influenciada pela fantasia inconsciente somada à nossa cultura científica.
A fantasia inconsciente é sempre um recobrimento de uma ferida narcísica, obrigatória na vivência de todos, sobre o dilema de ser ou não ser tudo para mamãe; ou mesmo ter ou não o objeto do desejo dela. A explicação é sempre um recobrimento desta ferida, mas nem sempre se traduz sob a lógica da causa/conseqüência. Mas estas construções terão seus efeitos nas nossas escolhas, sejam conscientes ou inconscientes.
Então nos vemos diante de outra importante questão, principalmente em um análise: Representar é explicar? Ou, quando falamos em inconsciente, estamos diante de uma trama de leis distintas?
Somos seres históricos, diferindo das demais espécies. Será isto, justamente, o que nos torna seres temporais e capazes de nos portar de forma única, pessoal e constituir, paralelamente, uma trama psíquica e uma narrativa sobre nossas vivências, que traçará um jeito próprio de encarar o mundo.
A construção dramática de nossas vivências não deve ser entendida como fonte única de todo sofrimento ou mesmo de uma patologia, embora muitas vezes possam ter sua influência. Mito individual e história pessoal, sem dúvida, estão vinculados ao fantasma que pode estar fortemente aprisionado às nossas questões ou sofrimentos, mas não necessariamente explicam a causa de tudo, como, por exemplo, algumas doenças.
Devemos ter cuidado redobrado para que “o conceito de causa não seja a priori da compreensão”.  A demonstração da causa é sempre experimental e pressupõe uma determinação imutável das coisas, portanto, pressupõe que seja sem história e asseguradora. Ao se falar demasiadamente em causas, estamos indo na contramão dos caminhos da pulsão, que são para a psicanálise, a verdadeira força da vida mental e da história individual.
A construção histórica difere de buscar as causas, pois o inconsciente funciona sob outra lógica – o acaso. Trata-se da casualidade do encontro entre as sensações e seus representantes, o encontro entre o inconsciente parental e o do filho, o encontro mãe/bebê e o encontro singular de cada destino. O acaso do encontro é também a causalidade inconsciente, causa nada linear que implica em uma pluralidade de fatores e respostas possíveis, das quais a reconstrução difere muito da reconstituição dos fatos. Não se deve confundir a reconstrução simbólica com a restituição dos fatos. Ao se construir simbolicamente uma história, abrimos espaço para mais liberdade de escolha, e não a versão verídica da realidade acontecida. Evidentemente, esse saber não é objetivo, pois cada um tem a sua verdade, e a sua versão dos fatos que por mais que seja objetivamente compartilhado, nunca é vivido da mesma forma por duas ou mais pessoas. Cada um conta a sua verdade da história.

domingo, 14 de outubro de 2012

COMO É DIFÍCIL LIDAR COM ESTA INVEJA!!!!


É comum  nos deparamos mordidos com o sentimento de inveja, ou nos sentimos injustiçados. Isto parece convocar o pior de cada um de nós.
Como entender ou lidar com isto?
Estes sentimentos que geralmente identificamos como negativos estão ligados a vivências das mais primitivas da nossa estrutura psíquica. Por mais que pareça justamente o contrário, são base do sentimento social, denominados sentimentos gregários – se constroem a partir do desejo compartilhado pelos membros de um grupo que haja justiça, ou seja, um tratamento igual para todos.
Para compreendermos como a mudança deste afeto acontece, vamos falar um pouco das nossas primeiras relações, pois estes sentimentos sociais não são inatos, mas construídos progressivamente ao longo da infância. Portanto, o sentimento comunitário não é encontrado nas crianças. Este tem por origem um sentimento primitivamente hostil, a inveja, que se transforma em um desfecho positivo, a identificação.
A identificação se constituirá a partir da inveja experimentada pelas crianças, muito precocemente, ao iniciar sua convivência com outras crianças, semelhantes a ela, e se verá na condição de disputar o amor e a atenção de uma pessoa amada. A hostilidade experimentada em relação ao rival é extremamente ameaçadora, na medida em que a criança reconhece  que a expressão de sua hostilidade pode significar o afastamento do ente querido, objeto de seu amor, obtendo assim, resultado oposto à sua verdadeira intenção.  O sentimento social ganha sua força ao reivindicar toda atenção de um líder e temer a disputa dos rivais. Desta forma, rivais a princípio acabam por se identificar devido ao fato de amarem o mesmo objeto
Mas por que, então, sentimos a inveja como hostil e fulminante em nossas vísceras, uma vez que tais sentimentos parecem desembocar justamente nos ideais sociais e comunitários?
O ideal altruísta de justiça  tendenciosamente esconde algo muito mais egoísta e individualista: seu verdadeiro objetivo é se certificar de que o rival fique sem nada, exatamente como nos sentimos. A inveja não é dirigida a um outro genérico, mas sim a um outro específico, que tem coisas das quais sentimos que não temos.
O que invejamos não está ligado à nossa sobrevivência, nem é necessariamente útil. O objeto da inveja é o que irá satisfazer o outro com o qual nos comparamos e nos identificamos. Assim, o que causa inveja, não é a posse do objeto, mas a fruição de prazer que o rival obtém com este objeto. É a imagem da satisfação do outro que nos captura. O invejoso nada mais é aquele que almeja a mesma satisfação.
Esta compreensão, nos põem diante de uma situação muito desconcertante! Realmente, dá pano para manga, muitas conversas e temas que irei desenvolver em outras oportunidades.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

COMO ELE VAI SER QUANDO CRESCER?


Todos os pais ao olharem para seus filhos fazem esta pergunta. É claro que é muito difícil falar como o bebê será. Não é possível determinar ou prever a vida de cada um, mesmo que possamos perceber várias características de uma criança desde cedo. Mas algumas das experiências iniciais da primeira infância serão marcantes na constituição da personalidade.
A personalidade é um conjunto de fatores que abarca tanto aspectos congênitos, com os quais nascemos; como aspectos constituídos na relação com o outro. Ela é resultante das nossas vivências.
Quando nascemos, o nosso sistema neuromotor é extremamente imaturo e ainda não temos a competência de expressar o que vivemos, sentimos ou mesmo como pensamos. Na verdade, o pensamento é resultado de um processo que se constitui na experiência com o outro, principalmente na relação com quem exerceu os primeiros cuidados com o bebê.
Ao nascer, alguns bebês são mais ativos e outros mais passivos. Assim como há mães mais pacientes, calmas e outras mais ansiosas e impacientes. Esta interação terá bastante influência na constituição de cada um.
O recém-nascido está sujeito a uma série de sensações que se originam tanto de estímulos externos, como dos órgãos internos. Ao sentir desconforto, ele é incapaz de agir de forma a interromper esta sensação, só lhe resta chorar. Ao atendê-lo, a mãe dá respostas com o intuito de apaziguá-lo no seu desconforto. Estas respostas vão se marcando como prazerosas quando lhe aliviam o mal estar. Será a partir destas experiências que vai se constituindo sua história.
Em geral, a família cria muitos ideais para o seu filho. Ele se insere em um projeto familiar. Para ilustrar,  conto a piada da mãe que sai para passear toda orgulhosa com os seus bebês gêmeos. Encontra uma amiga que pergunta: "Quem são?" A mãe responde: "Este é médico e o outro é o engenheiro."
Vemos, então, como um bebê está inserido em um contexto de ideais familiares. É claro que estes ideais não são só de coisas positivas. Também podem consistir em um pensamento do tipo: “será mais feliz em seu casamento do que eu”; ou algum temor da história dos progenitores: “não será tão louco como a tia”.
O que procuro ilustrar, é como ao chegar em uma família, a criança vem para ocupar, ou negar um lugar de expectativas. Este lugar é marcado como um ideal para esta criança. Lugar idealizado a ser cumprido ou a ser questionado.
Podemos afirmar que a personalidade do bebê é fortemente marcada pelo vivenciado. Todos nós conhecemos o jogo de “cadê/achou” dos pequenos. Este jogo pode ser tomado por metáfora de como o jogo de identificações acontece: ao perguntar para a criança: "Cadê o Joãozinho?" A imagem que irá aparecer será a do adulto que está brincando e        que afirma para a criança ao aparecer: “Achou o Joãozinho!!!”
O processo de identidade é muito parecido com o jogo de “cadê/achou”. Na procura do objeto de satisfação, o que aparece é a imagem do outro, do ideal dado pelo outro. Esta experiência regerá o que será a personalidade do bebê. Ou seja, a personalidade será editada sobre a experiência dos primeiros anos de vida. O aparelho psíquico se organiza de forma cada vez mais complexa por toda a infância.
Há marcos importantes do desenvolvimento psíquico infantil que podem ser observados e a ausência deles pode ser um alerta para os pais:
·        O bebê olha nos olhos daquele que fala com ele desde o nascimento.
·        O sorriso diante da presença de uma pessoa é esperado do 2º ao 3º mês.
·        Após o 4º mês, o bebê chora quando a pessoa se afasta dele.
·        Ele deve balbuciar em torno do 4º ou 5º mês.
·        Reconhece sua imagem no espelho e jubila diante dela a partir do 6º mês.
·        Sabe, deliberadamente, provocar o outro para que lhe dê carinho e atenção no 7º /8º mês.
Durante o primeiro ano, o bebê vai desenvolvendo a motricidade e a fala.
Em torno dos dois anos de idade, em geral, é um momento difícil par alguns pais, pois a criança já goza da autonomia motora, faz tudo para testar os limites e provocar os pais, obrigando-os a constantemente dizer não. Isto não que dizer que o filho será terrível ou difícil, apenas está experimentando sua autonomia.
Nesta ocasião, veremos de forma incipiente como a personalidade do sujeito começa a se delinear. Como disse, é um processo que se constitui por toda a infância a partir da experiência individual e única de cada um. Vivência que será reeditada na adolescência para ai, sim, se fixar, caracterizando o estilo de cada um.